Conto: Fobia

23 out

FOBIA

(Autora: Karen I. Soares)

Andava pela rua deserta e úmida. Era noite sem lua e já passava da hora de estar em casa. De acordo com o movimento de meus braços, ouvia o som da capa de chuva ainda molhada esfregando em si mesma.

Na escuridão, tudo o que se podia ver eram, sobre as superfícies, o reflexo da luz longínqua de um poste. Caminhei lentamente pelo chão escorregadio de uma calçada, enquanto ouvia nada, além do som da capa de chuva.

O cheiro de terra molhada não servia de consolo em meio à sensação caótica que a rua deserta proporcionava. O silêncio mortal não significava solidão, mas sim o prelúdio de uma companhia aterradora. Sábado de madrugada. Além de mim, quem mais andaria sóbrio pela rua?

De repente, senti um movimento vindo de trás. Terá sido só impressão? Ou será que vem alguém? Pensei. Quem seria? Devo olhar e descobrir logo quem é? Ou será melhor continuar andando e fingir que não notei?

Uma sirene de ambulância irrompeu de algum lugar longínquo. O movimento às minhas costas persistia. O som diminuiu à medida que a ambulância se distanciou, até que desapareceu, deixando apenas o eco em minha mente. Comecei a pensar se teria que lutar por minha vida, enquanto o movimento teimava em me seguir. Seria mais inteligente eu simplesmente correr? Com esforço, tomei uma decisão e, repentinamente, me virei para encarar meu perseguidor.

Ninguém.

Um vento frio passou pelo meu pescoço, gelando a alma. Retomei meu caminho, com passos mais rápidos. O tempo voltava a fechar.

À medida que caminhava, percebi que não estava só. Sobre um muro à minha direita, um par de olhos felinos me observava. Negro como a noite, o gato estava imóvel como uma estátua, com exceção de seus olhos dourados, que me seguiam. Quando me aproximei, sem emitir um som sequer, ele deu as costas e desapareceu, misturando-se com a noite.

Segui meu caminho. Discretamente, coloquei a mão no bolso e apertei o controle do carro. Entrei e tranquei a porta. Um raio rasgou o céu à minha frente, seguido de um trovão. Dei partida e pus o carro em movimento.

O limpador de pára-brisa varria a paisagem à minha frente enquanto a chuva caía. Pelo retrovisor, eu via a escuridão sendo deixada para trás.

Peguei a via expressa. Para minha surpresa, ela estava deserta. Postes passavam por mim. Luz, trevas, luz, trevas, luz, trevas. Contava os minutos para chegar.

Não há nada no banco traseiro, pensei. Nenhum livro, nenhum casaco, nada. O som da chuva forte começava a me confundir. Não havia nada no banco traseiro quando entrei no carro, eu conferi. Será que conferi?

Olhei para frente, tentando manter a atenção na rua. Uma sombra passou pelo retrovisor. Num piscar, meus olhos foram guiados para ele, mas não havia nada. Nada além do banco traseiro. Não há ninguém no banco traseiro. Ninguém no meu campo de visão.

Estava na quinta marcha. Quais são as chances de aquaplanagem? Diminui a velocidade. Torci para que não houvesse ninguém no banco de trás.

Saí da via expressa. O bairro estava sombrio, mas eu não estava mais a pé. Passei por uma grande poça, espirrando litros de água para todos os lados. Quando cheguei, o portão já estava aberto. Senti um calafrio. Será que apertei o controle uma quadra antes? Ou será que esqueci aberto? Terá entrado alguém? Devo chamar a polícia?

Com o carro estacionado, inspecionei o banco traseiro. Não havia nada. Saí do carro e tranquei. Respirei fundo. Abri a porta de casa. Nheeeec. O interior estava tão escuro quanto o exterior. Apesar disso, não liguei a luz. Não queria que percebessem minha chegada.

Atravessei a porta. Antes de fechar, procurei alguém escondido atrás dela. Ninguém. Lentamente, tirei a capa de chuva, deixando-a cair no chão. A chuva caía violentamente lá fora. Dentro, apenas o som do silêncio.

Percebi que estava com fome. Mas a cozinha era longe demais, perigosa. Decidi subir as escadas, na ponta dos pés. Um degrau, dois degraus. Se o invasor estiver armado, este é o momento de disparar. Oito degraus, nove degraus. Comecei a sentir uma ponta de esperança quando me aproximava do topo da escada. Dezessete degraus. Fim. Estou no segundo andar, pensei. Alguns passos até a porta do quarto. Momento crucial. Se algo der errado agora, terá sido tudo em vão.

Levemente, toquei a maçaneta. Girei-a. Abri a porta. O interior estava escuro, a chuva açoitava a janela. Mais uma vez, inspecionei atrás da porta. Nada. Entrei e fechei-a, ainda no escuro. Silenciosamente, girei a chave da porta. Acendi a luz. Olhei para os lados e percebi que o quarto estava vazio.

Uma sensação de liberdade invadiu meu peito quando me deixei desmoronar em cima da cama.

*

Agora que você terminou de ler, me diga:
O que você entendeu deste meu conto? Que fobia a pessoa tem?

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15 Respostas to “Conto: Fobia”

  1. brueh outubro 23, 2009 às 7:45 pm #

    Ela tem medo de escuro xD

  2. Ludmlla outubro 26, 2009 às 5:33 pm #

    silêncio mortal tomou conta do meu ser ao ler este conto. FREP FREP FREP! Saí correndo para pedir ajuda. Ninguém.

    Fobia das onomatopéias!

  3. Karen Soares outubro 27, 2009 às 11:29 am #

    Devo considerar isso um comentário interessante… ou sarcástico? Hehehe

  4. HIOTO (Rubens Teles) novembro 5, 2009 às 8:02 am #

    Eu diria que “você” do conto tem agorafobia – temor de lugares abertos. Note como ela entrou em casa sem medo apesar de poder haver alguém ali enquanto na rua, seus temores eram bem palpáveis. Gostei muito do conto Karen. Dá pra ver que o concurso da Jambê vai ser disputado. Vou dar uma fuçada mais a fundo no seu blog.

    Parabéns!

  5. Pri Skywalker novembro 7, 2009 às 12:44 pm #

    putz…ótimo conto… prendeu TOTALMENTE minha atenção..mesmo, EU JURO!
    foi o melhor texto seu que já li!

    na minha opinião, o cara do conto é totalmente louco ou vive em Silent Hill…ou os dois!!!!

  6. Karen Soares novembro 13, 2009 às 10:27 pm #

    Obrigada pelos comentários, pessoal!
    Ao escrever o conto, decidi que meu personagem tem um medo específico, mas fiz questão de não deixar claro qual é.
    Fico muito feliz em ver que cada um respondeu uma coisa diferente, era exatamente esse o objetivo =)

  7. Ivan - Copy novembro 15, 2009 às 2:07 pm #

    Teria sido perfeito se ela fechasse a porta no final…e após um silêncio…o grito mortal…O medo se tornando real, graças a sua mente, que acabou fazendo-o se materializar…Porém, não foi isso que aconteceu…hehehe…Karen, parabéns mesmo, mas cuidado com o texto…Tem alguns errinhos que você não costuma cometer…O texto é bom, mas não é o seu melhor não…Beijos…

    • Karen Soares novembro 15, 2009 às 2:30 pm #

      Obrigada pela opinião sincera, Ivan! Hahahaha…
      A idéia desse texto é simplesmente mostrar a tal fobia do jeito que ela realmente é: um medo irracional. Não há motivo real para se ter medo.
      Mas você sabe, né? Esse não é meu gênero/estilo favorito, então não fica lá aquelas coisas.

  8. HIOTO (Rubens) novembro 15, 2009 às 3:23 pm #

    Você não vai revelar qual seria esse medo?

    ^^

  9. Beholder novembro 17, 2009 às 8:16 pm #

    Frep Frep Frep
    realmente achei que rolou onomatopéias de mais =T tanto que os 4 ultimos paragrafos que não contem nenhuma foram os melhores na minha opinião o>
    Boa sorte com a Jambo BTW =)

  10. uncle "m" janeiro 13, 2010 às 9:14 am #

    Um anjo te seguia…. e te acompanhou até o final da jornada, quando vc caiu nos braços de “morfeu”… e provavelmente quando acordou … a chuva havia passado, mas a capa molhada continuava no chão… molhada ainda, para lembrar da noite passada…

    to be continued…

  11. uncle "m" janeiro 13, 2010 às 9:50 am #

    É fobia do “silêncio ensurdecedor” e da “noite cega”, que a seguiu desde o começo… graças ao anjo que te seguiu… (se vc olhar, verá uma luzinha azul- no alto à esquerda(só se vê à noite) é o seu anjo-K))e te protegeu desde seus primeiros passos até o presente momento…

    to be continued…. later…

  12. Karen Soares janeiro 15, 2010 às 12:34 pm #

    uncle “m”

    Hahahahahaha

  13. Skipwolf (Conrado) janeiro 16, 2010 às 8:02 am #

    Caraca muito bom… não sou muito bom em classificar fobias se for pra arriscar… acho que é mania de perseguição; paranoia essas paradas ahahah

  14. Tania Maria setembro 17, 2010 às 6:13 am #

    Sua fobia é o medo de ser perseguida !

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