UMA NOVA AMIZADE
Eu já conhecia a Ariadne antes, ela era minha colega da escola, mas não a conhecia profundamente. Naquela viagem, nos tornamos unha e carne. Conversamos bastante, contamos nossos problemas, nossos segredos, demos conselhos uma à outra, e vivemos a melhor noite de todos os tempos. Ela é uma pessoa incrível! Infelizmente, quando voltamos ao Brasil, foi como se acordássemos de um sonho. Até tentamos sair juntas e tudo mais, mas gostávamos de ir a lugares diferentes e de sair com pessoas diferentes, e acabamos nos distanciando. Mas aquela noite valeu por todas!
Era o último dia em Bariloche, na manhã seguinte entraríamos no ônibus de volta a Buenos Aires, e então no avião para o Brasil. Ninguém aguentava mais ouvir música argentina, e queriam ir a uma rave. Eu era exceção: gostei tanto das músicas que até comprei um CD, mas topava ir a qualquer festa. Com a intenção de fechar com chave de ouro, as guias da excursão decidiram agradar, e nos levaram a um novo lugar.
Chegando lá, tivemos uma surpresa: fomos recebidos por um estranhíssimo travesti! (me perdoem, travestis, mas vocês não fazem parte da minha realidade, e eu continuo achando esquisito…) Usava um vestidinho rosa e rodado, que parecia de princesa, não fosse o seu cumprimento, no meio da coxa. O cabelo era muito loiro e comprido, e ele, ou ela, entregava balinhas aos visitantes.
O interior do salão estava completamente deserto, com exceção de vários travestis. Todos eles ofereciam balas, enquanto um DJ agitava uma pista de dança vazia. Ficamos ali por algum tempo, esperando que mais gente chegasse, mas éramos, realmente, só nós. Em um dado momento, um grupo de meninos da excursão começou a se comportar de modo estranho, depois ouvi falar que estavam usando lança-perfume. Foi nessa hora que as guias decidiram levar todo mundo embora daquele lugar esquisito. Um alívio.
No ônibus, todo mundo reclamava da noite decepcionante. Queriam ir para outra boate, mas as guias disseram que, como tínhamos combinado de ir para aquela festa, elas não haviam agendado nenhuma das boates principais. Como todos da excursão usávamos uma pulseirinha que nos tinham dado no dia em que chegamos a Bariloche, que servia para entrar nas cinco boates (By Pass, Genux, Cerebro, Grisú e Rocket) durante a semana que ficamos na cidade, algumas pessoas brincaram, dizendo que iam sair do hotel e ir a pé até a Cerebro, que ficava a apenas duas quadras, e entrar com a pulseira. No final, desistiram da ideia e decidiram ir a uma pizzaria ali perto.
Eles desistiram da ideia, mas Ariadne e eu, não.
*
TCHAU, TCHAU, EXCURSÃO!
Fizemos uma horinha no hotel para disfarçar, e depois saímos pra rua. Passamos em frente à tal pizzaria onde todo mundo estava comendo e fomos para a Cerebro. Na porta tinham três seguranças, e eu pensei que seríamos barradas. Mas a Ariadne é uma ótima atriz! Ela chegou na frente dos seguranças, olhou pro letreiro acima da cabeça deles, apontou com a mão onde estava a pulseirinha e leu, devagar como uma criança “Ce-re-bro”, olhou para mim e disse “é aqui mesmo, Karen, vamos entrar”, como se nossa excursão estivesse lá dentro. Eles não entenderam nada do que ela disse, e um olhou para o outro com uma cara de quem não sabe o que fazer. Então ela me puxou pela mão e nós duas entramos, sem nem olhar para a cara dos seguranças.
Já passava e muito de meia-noite, por isso não pudemos ver o show de lasers, mas isso não fez falta. Como não precisávamos pegar o ônibus às 4, ficamos até as 7 da manhã. Descobrimos que depois das 4 a boate começava a tocar música brasileira, e ficamos dançando com dois argentinos. Era engraçado, porque a gente podia fazer qualquer “passinho pra frente, passinho pra trás” que eles achavam que a gente estava abalando! A Ari ficou com o argentino dela, o que foi ótimo, já que ela precisava esquecer o ex-namorado, mas eu só enrolei o meu argentino. Ele não deve ter gostado muito disso, hehehe.
Quando saímos da Cerebro, o céu estava muito claro, mas não tinha sol. Era um céu branco esquisito. Fomos a um café tomar um chocolate quente e fizemos as últimas compras na cidade (compramos muito chocolate!). Quando estávamos entrando no hotel, a guia estava saindo. Pensei que ela fosse reclamar, mas tudo o que me disse foi um simpático “bom dia”. Ariadne e eu subimos as escadas e foi cada uma para seu quarto.
Cinco minutos depois, a guia ligou no telefone do meu apto, onde minhas três colegas de quarto ainda dormiam. Ela disse que estava nevando, e me chamou para ver. Como nunca tinha nevado na cidade enquanto estávamos ali, desci correndo e encontrei a Ariadne no hall. A cidade estava toda branca, com uma camada de 20 cm de neve. Parecia cena de filme, a cidade do Papai Noel. Neve branquinha e macia, caindo em pequenos flocos e cobrindo casas e carros. Fascinante.
Este foi o último dia de uma viagem inesquecível.
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