FOBIA
(Karen I. Soares)
Andava pela rua deserta e úmida. Era noite sem lua e já passava da hora de estar em casa. De acordo com o movimento de meus braços, ouvia o som da capa de chuva ainda molhada esfregando em si mesma. Frep. Frep. Frep.
Na escuridão, tudo o que se podia ver eram, sobre as superfícies, o reflexo da luz longínqua de um poste. Caminhei lentamente pelo chão escorregadio de uma calçada, enquanto ouvia nada, além do som da capa da chuva. Frep. Frep. Frep.
O cheiro de terra molhada não servia de consolo em meio à sensação caótica que a rua deserta proporcionava. O silêncio mortal não significava solidão. Pelo contrário, o problema seria se alguém aparecesse. Sábado de madrugada. Além de mim, quem mais andaria sóbrio pela rua?
De repente, senti um movimento vindo de trás. Será que foi só impressão? Ou será que vem alguém? Pensei. Quem seria? Devo olhar e descobrir logo quem é? Ou será melhor continuar andando e fingir que não notei?
A sirene de uma ambulância irrompeu de algum lugar. O movimento às minhas costas persistia. O som diminuiu à medida que a ambulância se distanciava, até que desapareceu, deixando apenas o eco em minha mente. Comecei a pensar se teria que lutar por minha vida, enquanto o movimento teima em me seguir. Seria mais inteligente eu simplesmente correr? Com esforço, tomei uma decisão e, repentinamente, me virei para encarar meu seguidor.
Ninguém.
Olhei para a direita. Ninguém. Para a esquerda. Ninguém. Um vento frio passou pelo meu pescoço, gelando minha alma. Retomei meu caminho, com passos mais rápidos. O tempo voltava a fechar.
À medida que caminhava, percebi que não estava só. Sobre um muro à minha direita, um par de olhos felinos me observa. Negro como a noite, o gato estava imóvel como uma estátua, com exceção de seus olhos dourados, que me seguiam.
Quando me aproximei, sem emitir um som sequer ele deu as costas, misturando-se com a noite. Vagamente vi quando pulou pra o outro lado do muro, para o desconhecido.
Segui meu caminho. Discretamente, coloquei a mão no bolso e apertei o controle do carro. Entrei e tranquei a porta. Um raio rasgou o céu à minha frente, seguido de um trovão. Dei partida e pus o carro em movimento.
O limpador de pára-brisa varria a paisagem à minha frente enquanto a chuva começou a cair. Pelo retrovisor, via apenas a escuridão sendo deixada para trás.
O vidro embaçou. Contra minha vontade, liguei o ar. Vrrrrrrrrrrr. Peguei a via expressa. Para minha surpresa, ela estava deserta. Postes passavam por mim. Luz, trevas, luz, trevas, luz, trevas. Contava os minutos para chegar.
Não há nada no banco traseiro, pensei. Nenhum livro, nenhum casaco, nada. O som da chuva forte começa a me confundir. Chhhhhhhhhhh… Não havia nada no banco traseiro quando entrei no carro, eu conferi.
Será que conferi?
Olhei para frente, tentando manter a atenção na rua. Uma sombra passou pelo retrovisor. Num piscar, meus olhos foram guiados para ele, mas não havia nada. Nada além do banco traseiro. Não há ninguém no banco traseiro. Ninguém no meu campo de visão.
Estava na quinta marcha. Quais são as chances de aquaplanagem? Diminui a velocidade. Torci para que não houvesse ninguém no banco de trás.
Sai da via expressa. O bairro estava sombrio, mas eu não mais estava a pé. Passei por uma grande poça, jogando litros de água para todos os lados. Quando cheguei, o portão já estava aberto. Senti um calafrio. Será que apertei o controle uma quadra antes? Ou será que esqueci aberto? Terá entrado alguém? Devo chamar a polícia?
Com o carro estacionado, inspecionei o banco traseiro. Não havia nada. Sai do carro e tranquei. Respirei fundo. Abri a porta de casa. Nheeeeeeeeeeeec. O interior estava tão escuro quanto o exterior. Apesar disso, não liguei a luz. Não queria que percebessem minha chegada.
Atravessei a porta. Antes de fechar, procurei alguém escondido atrás dela. Ninguém. Lentamente, tirei a capa de chuva, deixando-a cair. Paf. A chuva caia violentamente lá fora. Dentro, ouvia apenas o som do silêncio.
Percebi que estava com fome. Mas a cozinha era longe demais, perigosa. Subi as escadas na ponta dos pés. Um degrau, dois degraus. Se o invasor estiver armado, este é o momento de disparar. Oito degraus, nove degraus. Comecei a sentir uma ponta de esperança quando me aproximava do topo da escada. Dezessete degraus. Fim. Estou no segundo andar, pensei. Alguns passos até a porta do quarto. Momento crucial. Se algo der errado agora, terá sido tudo em vão.
Levemente, toquei a maçaneta. Girei-a. Abri a porta. O interior estava escuro, a chuva açoitava a janela. Mais uma vez, inspecionei atrás da porta. Nada. Entrei e fechei-a, ainda no escuro. Silenciosamente, girei a chave. Acendi a luz. Olhei para os lados e percebi que o quarto estava vazio.
Uma sensação de liberdade invadiu meu peito quando me deixei desmoronar em cima da cama.
*
Agora que você terminou de ler, me diga:
O que você entendeu deste meu conto? Que fobia a pessoa tem?